O que a bruxa tem a ver com o que você vive hoje?

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Uma das coisas que a minha pesquisa de Doutorado me mostrou é que a imagem da bruxa não foi destruída à toa.

A bruxa precisou virar algo feio e maléfico e ser vista como algo atrasado e perigoso para uns, e para outros, como algo ridículo, lunático e sem relevância.

E ela precisou virar tudo isso para beneficiar a saúde dos que se prejudicavam com a existência dessa mulher.

Antes de seguirmos, me deixe te contar uma coisa.

O argumento principal e original da minha tese de doutorado, que foi defendida em Dezembro de 2022 (link na bio) é: que por as mulheres estarem socialmente vinculadas à produção e reprodução da vida na sociedade capitalista, e pela lógica do metabolismo social capitalista implicar em uma subalternização da vida à favor do lucro, as próprias mulheres, sua relação com, e possíveis identidades ligadas à, produção e reprodução da vida passam todas à serem subalternizadas, marginalizadas e desvalorizadas dentro dessa sociabilidade. É entorno desse fundamento lógico, com implicações materiais, que Capital e Patriarcado se associam, se aliam, se protegem e “têm interesse” em perpetuar esse status quo. Que, por sua vez, se apresenta como vital às suas dinâmicas internas e poderes.

A partir disso, desse meu pensamento defendido, eu venho desenvolvendo desde então por diversos meios – inclusive já nas considerações finais da minha própria tese – uma continuação também autoral e original desse meu pensamento e entendimento.

Nele eu sustento que: as identidades femininas pré-cristãs desenvolvidas no interior de cultos, sacerdócios, mitologias e/ou práticas mágicas e/ou religiosas desse período, que futuramente vão ser resgatadas e alteradas em seus significados originais para dar corpo ao que se chamará de “bruxa”, por exemplo, pela Igreja e pelo Estado em diversos contextos, carregam em suas formas originais pré-cristãs potências tanto identitárias, quanto materiais, simbólicas e ideológicas/racionais que são antagônicas, disruptivas e libertárias para a opressões às mulheres e capitalistas na sociedade contemporânea.

Esses dois pensamentos e entendimentos, construídos por essa sequência argumentativa, na qual um fundamento leva ao outro, constituem formulações autorais, originais e próprias, desenvolvidas por mim no interior e a partir da minha pesquisa de doutorado.

A reprodução, cópia, paráfrase substancial, adaptação, disseminação ou apropriação dessa construção argumentativa, de suas formulações textuais, de sua arquitetura lógica, de suas hipóteses centrais, de seus desdobramentos conceituais ou de sua exposição original, quando realizadas sem as devidas referências à minha autoria, poderá configurar plágio acadêmico, apropriação indevida de contribuição intelectual e/ou violação de direitos autorais, nos termos da legislação brasileira aplicável. A ausência de referência, quando houver aproveitamento substancial desta construção intelectual, será compreendida como tentativa de atribuição indevida de autoria e poderá ensejar as medidas éticas, acadêmicas, administrativas e legais cabíveis.

Dito isso, seguimos.

Quando a nossa sociedade atual estava se formando – ao longo do período de transição do feudalismo para o capitalismo na Europa – o Estado e a Igreja não estavam muito satisfeitos com o rumo que a saúde deles estava tomando.

A Igreja vinha sofrendo ofensivas de movimentos considerados por ela “heréticos”, que questionavam suas condutas. E o Estado lutava contra uma baixa populacional intensa, em decorrência da “peste negra”.

Exercer o controle sobre a natalidade, sobre o corpo de mulheres com útero, e sobre os referenciais religiosos que destoavam da racionalidade católica, começou se impor como uma necessidade para eles. E então, a perseguição de mulheres as acusando de bruxaria, começou a parecer um bom negócio para a saúde desses poderes naquele momento.

E eu não estou dizendo que tudo isso foi feito absolutamente de caso pensado naquele momento, porque os acontecimentos históricos não se dão dessa maneira. As ações históricas vão se formando de forma quase “espontânea”. E é somente quando olhamos do presente para o passado é que conseguimos entender como uma coisa foi fundamental para o surgimento de outras.

Do final do século XV ao XVIII na Europa, sendo a Inglaterra o caso emblemático, ocorreu o que se entende como o período de transição do feudalismo para o capitalismo.

É durante esses séculos que se identifica as construções sociais e econômicas que tornaram possível o surgimento do capitalismo.

Portanto, que tornaram possível o surgimento da lógica de funcionamento da sociedade que a gente vive hoje.

O que aconteceu com as mulheres nesses territórios durante esses séculos vai ser vital para a construção do lugar social feminino nesse modelo de sociedade que estava sendo gestado nesse período.

O que se fez com as mulheres no continente europeu nesses séculos, vai dando forma tanto à função, quanto aos lugares, que as mulheres tenderão à ocupar na lógica do metabolismo social capitalista em formação.

O que se estabeleceu para essas mulheres no território europeu se espalhou pelo mundo por meio do mercantilismo, da colonização e depois do capitalismo, e foi ganhando novas características e dinâmicas quando encontrou o racismo.  

Então, sim, o que foi feito com elas impactou a vida de todas as outras que vieram depois delas. E não porque eram “opressoras”, mas sim porque foram vítimas de opressores que levaram essas opressões, e outras novas, pro resto do mundo.

O auge do que ficou conhecido como “caça às bruxas” se deu no século XVII, já no fim do período de transição.

Mas a tortura, morte e perseguição de mulheres e homens, que possuíssem certas condutas sexuais, espirituais, religiosas, de pensamento, ou de práticas que de alguma forma lembrassem resquícios de religiosidades pré-cristãs já ocorria desde meados do século IV na Europa.

A caça às bruxas do final do período de transição não perseguiu somente mulheres realmente praticantes de bruxaria.

Na verdade, a maioria das mulheres perseguidas naquele momento, não eram realmente praticantes de bruxaria.

O que aconteceu foi que se criou um referencial de bruxa, pintou-se esse referencial como algo nefasto e se posicionava dentro daquele referencial toda mulher que pudesse representar uma ameaça ou uma tensão para os poderes e interesses da Igreja e do Estado naquele momento.

Por isso tudo estar acontecendo no momento em que a nossa sociedade atual tava sendo formada, quando essas mulheres acusadas de bruxaria foram queimadas e demonizadas, o que sobrou como referencial de identidade feminina segura para as mulheres foi a de uma mulher útil.

A da cuidadora compulsória, assalariada mal paga, exausta e sendo muito pouco valorizada e não recebendo nenhum prestígio social por isso.

A partir disso você consegue compreender uma das origens dessa sensação que temos hoje de sempre estarmos cuidando de tudo, dando conta de tudo, nos adiantando às necessidades de todo mundo e fazendo tudo estar vivo, se sustentar, mas nunca sendo vistas ou valorizadas à altura pelo que a gente faz?

E aqui é importante a gente lembrar de uma coisa: antes de existir como uma das únicas possibilidades seguras de identidade feminina ser essa a da mulher útil – ou então a da bruxa demoníaca e que merece ser queimada na fogueira, que não é segura – existiram, no período pré-cristão, mulheres, Deusas, figuras e referências femininas que expressavam e viviam o poder do corpo, da natureza, da sua sexualidade, da vida, da morte, dos ciclos, e não eram vistas como algo demoníaco ou nefasto, ou útil. Na verdade, muito ao contrário disso.

E eu não vou dizer que essas mulheres, eventualmente, não eram temidas. Elas eram. Elas não eram mulheres dóceis.

Mas o temor que eventualmente elas poderiam causar era algo sentido de um outro lugar, de um lugar que tinha muito mais respeito e reverência envolvida.

Então, quando hoje você tenta ridicularizar a bruxa praticante ou qualquer mulher que se identifique com esse referencial feminino, você está repetindo um movimento muito antigo.

Você escolhe uma mulher que está ligada ao corpo, à natureza, ao invisível, à saberes antigos e empurra ela de volta para esse lugar de eliminação simbólica.

E isso não protege as mulheres.

Porque isso às mantém longe de uma possibilidade de identidade que devolve poder e autonomia ao nosso corpo, ao nosso desejo, à nossa sexualidade, à vida e à própria natureza.

Você favorece e contribui para o adoecimento causado justamente pelo apagamento desse referencial que a bruxa carrega.

Porque olha só essa crueldade histórica:

Muitas vezes, a mesma mulher ou pessoa que ridiculariza a bruxa ou tem medo dela, vive infeliz numa casa, numa relação, num trabalho, numa maternidade, que só pôde ser construída para ser vivida dessa maneira dentro da nossa sociedade atual, por conta da eliminação simbólica que esse referencial sofreu no momento de formação da nossa sociedade.

Você não precisa virar bruxa e nem acreditar no que a gente faz. Mas sem dúvidas você precisa sim, entender e se preocupar, por que que te deram como possibilidade rir, temer ou menosprezar “as netas das bruxas que não conseguiram queimar”.

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